Be Free!

Chegar em Paris é sempre uma sensação deliciosa. Tudo lindo, em qualquer estação. Gosto muito. Gosto sempre. Aproveito a noite de sábado pra andar por Saint Germain. Chove um pouquinho. As brasseries estão lotadas, como sempre.

Observo, observo e registro em mim minhas sensações. Uma das coisas que mais amo no mundo é andar sozinha por toda cidade em que estou. Uma boa música marcando meus olhares, os aromas, e a deliciosa sensação de liberdade e descoberta.


Tic tac…

Tá amanhecendo em Paris. Lindo. Eu e mais uma noite clara.

Bonjour!


Flying…

Interessante esse vôo. Depois de mais de uma hora de atraso e mil confusões de assentos que a Tam cometeu, aparentemente por “falha de sistema”, finalmente decolamos, deixando um Rio lindo e visto de cima, nada caótico. Já cruzando o Atlântico, fomos surpreendidos por uma turbulência louca, que não satisfeita em sacolejar o avião, o fez despencar uns bons metros, o que já gerou um nervosismo coletivo, intensificado no exato momento em que o avião inclinou o bico pra baixo. Ouvi uns gritos e deixei de ouvir tudo ao olhar pra senhora ao meu lado. Está com câncer. Esconde a falta de cabelos num chapéu e se protege do frio. Seu olhar não tem medo. É quase doce, mas sem brilho. Ela me sorri e eu sorrio de volta. Aos poucos volto a ouvir tudo em volta. As turbinas fortes. O avião está arremetendo. Ouço uma mulher chorando, ouço orações em diferentes línguas e então o avião estabiliza. Percebo que também estou trêmula. Agarro meu Rivotril e tomo 15 gotas. Não tenho medo de voar, ao contrario, sempre adorei ver tudo de outro ângulo e me perder em pensamentos e horizontes. É quase terapêutico. Nem mesmo eventuais turbulências me amedrontam, mas nunca tinha tido uma experiência dessas. É tudo tão rápido que jamais conseguiria descrever o que pensei. Nada de “o filme da minha vida passou na minha cabeça”. Só me lembro de um questionamento: estamos caindo? Não estávamos… Passado o susto, escolhi ver filme, mas o Rivo e o cansaço me abateram. Apaguei. Acordei com a claridade invadindo algumas janelas. Tomei meu café vegetariano e logo avistava a pista. Pousamos.

E plantando meus pés no velho continente, abro os braços e me preparo pro meu vôo particular.


You’re out of touch, I’m out of time…

3 doses de whisky, uma canção no repeat, algumas lembranças de algumas pessoas e umas poucas lágrimas. É isso que tenho pra essa noite. Amanhã, nessa mesma hora, estarei cruzando o oceano e deixando tudo isso pra trás.

Depois de dias e dias sem beber nada, algumas doses da minha Shiva preferida podem ter potencializado desejos. No breu, consigo ver Winehouse de um lado e Monroe de outro. 2 mulheres sofridas, e eu no meio. Sorrio, sem bem saber por quê…

A canção recomeça. Tento me masturbar. Não tenho tesão por nada.


A busca

Tanta coisa por aí.

Caminhos, lugares, paisagens, pessoas, filmes, músicas, instantes, momentos, sonhos, delírios, desejos, vontades.

Quero todas. Quero tudo. Sem desperdiçar mais nada.


Black Swan e o sombrio que habita em nós.

Antes mesmo de entrar no cinema, já sabia que seria uma experiência intensa. Pela própria história do Lago dos Cisnes, pela direção que vai sempre em busca de extremos de Darren Aronofsky, pela trilha também sempre absolutamente incrível de Clint Mansell ( basta ver a dupla junta em Requiem For A Dream, outro filme soco no estômago e que nos pega nas entranhas ), e pelo elenco: Portman, Cassel, Hershey, Ryder, Kunis.

De cara já fui engolida pela Nina e sua evidente loucura a ponto de explodir, mas ainda engatinhando e sendo alimentada pela mãe paranóica e repressora. “Ma’ sweet girl”, my ass. E se pressionando a ser brilhante e conquistar o papel principal – como cisne branco e cisne negro – e conquistar também a aprovação do diretor da companhia de balé, ela vai além do limite. E começa a piração. Começa a lidar com o lado sombrio que ela precisa encontrar em si para ser perfeita no papel. E alucina, enlouquece, cria essa sua versão black em Lily e mergulha em toda essa psicose. Vais se transformando, se conhecendo, se construindo, se descobrindo, até finalmente conseguir sentir o que buscava e sentir-se plena. É de arrepiar!

Arrebatador. Fascinante. Genial. Ainda estou sob o efeito. Ainda sem fôlego. Ainda em delírio.


Conversas com Alice

E então foi isso… Um dia eu resolvi que já não cabia mais em São Paulo, ou São Paulo não cabia em mim ou eu não cabia em lugar nenhum. Achei que talvez um pouco de brisa do mar pudesse me dar uma chacoalhada interna e tudo ficaria mais leve, mais fácil ou menos cansativo. Não deu certo… No começo até que foi bacana. O Rio tem aquela malandragem, aquela putaria inerente. É uma cidade linda, suja, libertina. Te seduz, mas não te leva pra casa. Como os cariocas. Como as cariocas. Te seduz, mas não banca. Te seduz, mas não te pega. Só um pouco e por pouco tempo. Depois de 2 anos e meio, cansei desse caso de amor com essa cidade. Achei que meus pulmões agora queriam se jogar de volta no caos e na poluição. Eu queria as luzes de Sãpa. Queria sua vida noturna, boêmia e sem rumo. Aqui, tudo pode acontecer. Nada é previsível e tudo é uma aventura e eu sou do tipo que gosta de se jogar assim de ponta e sem pára-quedas. Me lancei. De cabeça. Com o coração em taquicardia, deixando um amor secreto e doentio pra trás, fugindo pra um porto inseguro que me fizesse esquecer, anestesiar ou reencontrar alguma coisa que eu não sei o que é. E é aqui, perdida, como sempre fui, que me encontro agora. Andei em círculos. Dei um 360 e parei no mesmo lugar. Nowhere. Nonsense. Mas com o coração ainda pulsando tum tum tum tum tum tum tum…